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    Lúcio Flavio Pinto e a ciência amazônica

     

    Ima Célia Guimarães Vieira

    Pesquisadora e ex-diretora do Museu Goeldi/MCTI

     

    Ao analisarmos a “questão amazônica” percebemos que ela se mostra de diferentes maneiras nas escalas local, regional, nacional e global. Em suas raízes - seja no sentido biológico, seja do ponto de vista dos povos amazônicos - vemos a forte influência dos ecossistemas no modo como a ocupação vem sendo feita e como são utilizados os recursos.

    Nos últimos anos, os avanços do conhecimento científico sobre os sistemas amazônicos, e a consciência de sua importância para o equilíbrio do planeta, demonstraram os enormes custos ambientais e a insustentabilidade da exploração indiscriminada dos recursos naturais. A evolução das análises científicas também demonstram que as populações regionais devem ser parceiras do desenvolvimento.

    Devido a sua complexidade, a Amazônia é uma região que requer um tratamento diferenciado quando se trata de planejar e incentivar seu desenvolvimento. Por um lado, tem-se uma rica biodiversidade, com reconhecida contribuição para a regulação do clima; por outro lado, tem-se o desafio de reverter as taxas anuais de desmatamento, de manejar os recursos naturais e de assegurar a melhoria da qualidade de vida da população, que também é rica na diversidade social e cultural.

    Mas, a lista de obstáculos para o desenvolvimento sustentável da Amazônia é longa, e inicia com o desconhecimento científico sobre a região, a não consideração às diferenças regionais e o desrespeito aos direitos humanos. O padrão da produção agrícola da Amazônia, por exemplo, retrata os processos históricos regionais e intra-regionais, e constitui um território dinâmico com grande nível de plasticidade em termos de diversidade de paisagens rurais.

    Todas essas questões estiveram e estão ausentes no noticiário diário dos grandes veículos de comunicação e são muito pouco abordadas em matérias especializadas dos jornalistas científicos. Porém, o jornalista Lúcio Flavio Pinto, desde o I Simpósio Internacional da Biota Amazônica, evento realizado em 1966 em Belém (sua primeira cobertura jornalística, ainda muito jovem), fez a diferença durante sua trajetória de mais de 40 anos de investigação jornalística. Ele é  um dos principais conhecedores das questões ambientais e de conflitos de terra na Amazônia, além de outros assuntos, é claro, produzindo análises contundentes sobre a região.

    Sua visão é ambiciosa, quer que a Amazônia vire um celeiro de produção científica e aplicação tecnológica moderna, possibilitando que a região periférica obtenha uma nova posição no mundo. Ele quer ver a valorização da via de acesso pelos rios. Tem propostas concretas de projetos científicos para a região – como os kibutz científicos.

    Lúcio Flávio tem sido um crítico minucioso de todos os planos insanos e mirabolantes que já houve para a Amazônia, desde o Instituto da Hiléia, passando por Jarí, Calha Norte, SIVAM, Carajás, Tucuruí, Belo Monte. É um dos maiores inimigos da forma como as estradas cortam esse território.

    A história da Amazônia após os anos 70 não pode ser escrita sem mencionar os 12 livros que Lúcio Flávio escreveu e as centenas de edições do Jornal Pessoal e da Agenda Amazônica. Lúcio é corajoso, um estudioso da região e um incansável divulgador da verdade sobre o que acontece na Amazônia, com seu povo e o patrimônio público. Por isso, está sendo implacavelmente perseguido. Por isso, os arrogantes e poderosos (sejam juízes, empresários e os ditos donos das terras públicas da Amazônia) o ameaçam de todas as formas.

    Como Lúcio conseguiu fazer tudo isso? A compulsão pela leitura, a disposição para estudar e colecionar documentos, o conhecimento obtido em viagens pelo interior da Amazônia e pelo exterior, a formação de sociólogo, o exercício diário da reportagem investigativa, a convivência com cientistas e técnicos, o respeito pelo conhecimento erudito e popular. Mas, ele age, principalmente, por entender o jornalismo como uma missão social, a olhar criticamente as experiências do cotidiano.

    Sabemos que O Jornal Pessoal foi criado após uma incômoda constatação do Lúcio: ele não encontrava nas bancas as notícias o que considerava mais importante. Assim, ele passou a atuar num campo independente de interpretação da realidade amazônica. Lúcio não produz reportagens, ou notícia e nem artigos, como ele mesmo diz – o que ele escreve são análises.

    No quadro histórico da Sociologia do Pará – de 1860 a 2000 (In Políticas Desenvolvimentistas e Questão Agrária na Amazônia: a necessária anomia ao nascedouro das ciências sociais no Pará, de André Rosa Pureza), Lúcio Flavio Pinto aparece com três importantes  obras:

    1977 -  Amazônia: o anteato da destruição

    1980 - Amazônia: no rastro do saque

    1982 - Carajás, o ataque ao coração da Amazônia

    Seu trabalho singular já suscitou pesquisas em importantes universidades brasileiras, como a UFPA, ECA/USP e PUC/SP .

    Em 1990 Fabíola Imaculada de Oliveira defendeu a dissertação de mestrado na ECA/USP Jornalismo científico e a Amazônia: estudo de quatro jornais brasileiros. O Jornal Pessoal foi um dos casos estudados.

    Já em 2008, Maria do Socorro Furtado Veloso defendeu também na ECA/USP a tese Imprensa, poder e contra-hegemonia na Amazônia: 20 anos do Jornal Pessoal (1987-2007). Em 2009 a autora publica o trabalho Imprensa e contra-hegemonia na Amazônia: o caso do Jornal Pessoal.

    Também em 2008, Célia Regina Amorim defende a tese de doutorado em Comunicação e Semiótica na PUC /SP Jornal Pessoal: Uma metalinguagem jornalística na Amazônia.

    Seu reconhecimento é traduzido em prêmios nacionais e internacionais e sua participação em inúmeros fóruns de discussão sobre a Amazônia tem incentivado o debate sobre o futuro da região. Em julho de 2007, durante a 59ª reunião anual da entidade, recebeu a maior honraria concedida a um jornalista pela SBPC, a mais importante entidade científica do Brasil – e a imprensa do Estado não fez qualquer menção ao assunto!

    O jornalista nascido na beira do rio Tapajós, sempre nos fornece informações de natureza distinta, às vezes oposta às informações dos grandes veículos de comunicação do Pará e do mundo. Ele nos dá outra interpretação dos fenômenos políticos e sociais que transformam a Amazônia de maneira devastadora. Como assinala Socorro Veloso, o trabalho jornalístico de Lúcio “contribui decisivamente para a constituição de um senso crítico permanente face às demandas de conhecimento sobre a região”.

    Vou me deter em sua proposta de ocupar a Amazônia com ciência, que ele nos trouxe durante a 59ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em Belém. Segundo ele, para a Amazônia encontrar sua identidade, e impedir a progressão da devastação ambiental, é preciso que os cientistas estejam na linha de frente da ocupação da Região Amazônica. Lúcio sempre ressalta do pioneirismo que devemos ter na ciência regional, abrigando pólos científicos para adquirir identidade própria.

    Para ele, contudo, não basta trazer cientistas para estudar a região com um olhar externo, pois as mudanças rápidas que aqui ocorrem e os problemas gerados exigem respostas rápidas, que a pesquisa científica muitas vezes não consegue acompanhar por não ser feita localmente.  Lúcio propõe um novo zoneamento com foco na ciência, trazendo pesquisadores – da graduação até os mais altos níveis – para se fixar no interior, e não nas capitais.

    Sua proposta é audaciosa, reconhece que a descentralização da ciência é muito importante – um processo que depende do estabelecimento de uma infra-estrutura mínima para o desenvolvimento de pesquisas e da fixação de recursos humanos altamente qualificados em diferentes pólos. A proposta de criação de laboratórios temáticos, definidos com base na vocação natural da região, onde seriam instalados grupos qualificados de pesquisa e de comunicação do conhecimento científico é oportuna, e aumentaria enormemente a capacidade técnico-científica da Amazônia, propiciando, quem sabe, que os problemas sejam investigados com mais rapidez.

    Um dia desses li uma entrevista com 4 estudiosos da Amazônia, dentre eles, Lúcio Flávio, que foram indagados sobre qual a saída para a Amazônia? Para minha surpresa, apenas Lúcio respondeu que deveríamos investir maciçamente em ciência, tecnologia e conhecimento aplicado, não só formando quadros competentes dentro da região, com infra-estrutura adequada, mas atraindo pessoal da linha de frente do exterior “para partilhar seus conhecimentos e fazer a máquina do saber avançar além das frentes econômicas, orientando-as e cerceando-lhes a expansão quando se tornam irracionais e destrutivas”.

    Para Lúcio Flávio, “sem a ciência na vanguarda de qualquer ação na região, pública ou privada, a região não terá futuro digno. Só sabendo mais do que ninguém sobre a Amazônia e tendo uma estrutura institucional respeitável, estaremos em condições de separar o joio do trigo. Precisamos disso porque sem o intercâmbio científico e tecnológico a região estará sempre atrasada em relação à sua história, incapaz de responder aos desafios nos momentos em que eles se apresentam de forma prática”.

    Embora por muito tempo tenha se mantido como um blogueiro de papel e no papel, como ele mesmo diz, Lúcio Flávio Pinto personifica o espírito de uma rede social, um espaço que procura quebrar o monopólio da informação, e que traz à tona o real significado da liberdade de expressão. E sobre ciência, ele nos lembra sempre que a “Amazônia não precisa de ciência para aprender e ensinar, mas para criar e fazer”. Obrigada Lúcio, por nos provocar e fazer pensar.