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    Bertha Becker e a Amazônia

     

    A obra de uma das maiores especialistas em região amazônica é a base para o INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia discutir ciência e políticas públicas


     

    Agência Museu Goeldi - No dia 13 de julho de 2013, a ciência perdeu uma pesquisadora incansável, irrequieta e apaixonada pela Amazônia, região à qual dedicou 40 anos de estudo. Bertha Koiffman Becker faleceu aos 83 anos no Rio de Janeiro. Professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Ciência, era uma das principais pensadoras brasileiras sobre a realidade amazônica e consultora do INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia, coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi. 

    Homenagem – O INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia está realizando o ciclo de simpósios “Relações entre Ciências e Políticas Públicas: Propostas de Bertha Becker para o Desenvolvimento da Amazônia” para discutir o planejamento para a Amazônia com base nas propostas de Bertha Becker e homenageá-la. Os eventos são parte do plano de divulgação do trabalho de Bertha, que ainda conta com um blogDVD com a coletânea de seu trabalhoO primeiro simpósio ocorreu em janeiro de 2013 e o segundo está previsto para agosto deste ano. 

    As palavras da coordenadora do INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia, parceira em artigos e amiga de Becker há 13 anos, Ima Célia Vieira (ecóloga do Museu Goeldi), ressaltam a importância da geógrafa como cientista e cidadã: “Bertha Becker era apaixonada pela Amazônia, região que ela escolheu para estudar e que dedicou a maior parte de sua carreira. Era incansável em seus trabalhos de campo, suas análises profundas sobre o território amazônico e o papel das cidades, e seus projetos para a região. Bertha sempre esteve preocupada em associar a ciência que fazia com políticas públicas, e o seu último projeto de pesquisa, era exatamente isso: analisar as suas propostas para a Amazônia e os impasses e desafios para a implementação dos projetos de desenvolvimento. Cultivamos uma grande amizade nos últimos 13 anos. Além da ausência imensa, ela nos deixa lembranças e imagens de momentos alegres e descontraídos, ensinamentos que seguirão em novas propostas de desenvolvimento para a região amazônica. Perdemos uma cientista que se pautou pela ética e amor à ciência e uma ativa cidadã. O seu legado científico é imenso, diversificado e acessível a todos que queiram estudar a sua obra”.

    Contribuições à ciência - A geografia política pensada por Becker percebe a Amazônia como uma região complexa e estratégica para o país, para a qual ela propõe um novo modelo de desenvolvimento sustentável. Em debate no Museu Goeldi, em 2010, ela lançou aos pesquisadores o desafio de se refletir sobre o desenvolvimento da Amazônia articulando o papel das cidades, a conservação das florestas e as dinâmicas territoriais amazônicas, durante a conferência inaugural deste INCT.

    A geógrafa ressaltava a necessidade de conter o desmatamento na região, propondo atividades produtivas adequadas aos serviços ambientais proporcionados pela floresta e a exploração de produtos não madeireiros. Segundo ela, o fim do desmatamento só ocorreria com a atribuição de valor econômico à floresta em pé. Por isso, defendia o papel da rede urbana como centros estratégicos de cadeias produtivas e como ‘cinturão de blindagem flexível’ às matas densas.

    Além disso, o planejamento territorial da Amazônia deveria considerar as múltiplas territorialidades pertencentes a esse espaço. Becker chamava atenção para os poderes e territórios multidimensionais, que se manifestam em diferentes escalas e afetam as ações de controle exercidas pelo Estado.

    Bertha Becker atuou como consultora ad hoc em várias instituições científicas e participou do processo de elaboração de inúmeras políticas públicas relacionadas à região amazônica. O resultado de seu esforço junto a diversos setores da ciência brasileira, como a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), foi o delineamento do plano de ação e investimentos em ciência para a Amazônia. Sua proposta de promover "uma verdadeira revolução científica enfocada na biodiversidade nacional, e em especial na biodiversidade da Amazônia", é fonte de inspiração para diversos pesquisadores, unidos em torno  do que denominaram como “revolução beckeriana”.

    Mesmo com a saúde frágil, lançou seu último trabalho em junho deste ano. A “Urbe Amazônida”, da editora Garamond, examina a história e o papel da urbanização amazônica, reforçando a urgência de um novo padrão de desenvolvimento regional.

     

    Texto: Luena Barros