mct mpeg
Get Adobe Flash player

    Festa do Cauim: tradição Ka’apor em exposição no Museu Goeldi

    Durante a inauguração da exposição nesta sexta-feira no Museu Goeldi, o povo Ka´apor da TI Alto Turiaçu fará um dos rituais que compõem a Festa


    Agência Museu Goeldi - O Museu Paraense Emílio Goeldi abre nesta sexta-feira, 24, seu principal pavilhão expositivo para apresentar a cultura do povo Ka’apor, através da festa do Cauim. A festa é uma celebração que marca vários rituais de passagem ao longo da vida dos Ka’apor, como a iniciação feminina, o casamento, a posse do cacique e principalmente a nominação das crianças.

    Durante a abertura da Exposição Ka’apor, um grupo de 30 indígenas da Terra Indígena Alto Turiaçu (MA) fará uma representação do ritual de nominação de crianças. Pela primeira vez esta cerimônia será realizada fora da aldeia.

    A exposição, que acontece no prédio da Rocinha, localizado no Parque Zoobotânico do MPEG, exibirá um rico acervo da cultura material Ka’apor, como objetos de arte plumária, cestaria, flechas, adornos de miçangas e sementes, além de indumentárias masculinas e femininas.

    A mostra também contará com Fotografias do acervo do Museu do Índio e vídeos de registro da festa do Caium, com imagens capturadas na década de 1960 e em 2007 nas aldeias Ka’apor. Na abertura da exposição, o artesanato produzido nas aldeias Ka’apor estará à venda.

    A antropóloga do Museu Goeldi, Claudia López, curadora da exposição e estudiosa das dinâmicas sociais e culturais da etnia Ka’apor, afirma que “apresentar as tradições Ka’apor é uma maneira de mostrar que o povo está vivo, que resiste, que tem uma cultura viva e que eles estão defendendo seu território”. A curadoria da exposição também conta com Valdemar Ka’apor, Teon Ka’apor e Elizete Tembé. Laura van Broekhoven e Mariana Françozo, do Museu Nacional de Etnologia, localizado na Holanda, também fazem parte do grupo de curadores da mostra.

    Após a abertura da exposição no dia 24, o pavilhão da Rocinha passará por um período de manutenção entre os dias 25 e 29 de outubro, reabrindo para visitação pública no dia 30 deste mês. A exposição Ka’apor segue até 28 de setembro de 2015.

    Festa do Caium – Tradição do povo Ka’apor, a festa do Cauim geralmente acontece durante a lua cheia no mês de outubro e marca um processo de construção de identidade e formação das pessoas desta comunidade.

    O Cauim é uma bebida fermentada feita a partir do suco de caju e é compartilhado por todos da aldeia durante os rituais de passagem. Quem prepara o Cauim precisa obedecer a algumas exigências durante os dias de elaboração da bebida, como evitar contato sexual, além de não poder comer e beber.

    Os homens Ka’apor têm participação importante na elaboração da festa. São eles quem constroem a casa onde os festejos acontecem, que inicia com a retirada de madeira da floresta. Também são eles os responsáveis pela confecção da indumentária usada no ritual, como os objetos plumários. Já as mulheres dedicam-se à produção das redes e tipoias.

    Nominação das crianças - O batismo é a celebração mais importante dos festejos do Cauim. É nele que o pequeno indígena ganha identidade.

    A criança a ser nominada é embalada nos braços do padrinho por um longo tempo ao som do apito feito de canela de gavião, enfeitado com plumas.

    O ritual termina quando o padrinho devolve a criança aos braços dos pais e coloca um cocar na cabeça do afilhado dizendo seu nome.

    Iniciação feminina – É a partir da iniciação feminina que as moças tornam-se mulheres preparadas para casar e ter filhos.

    A passagem acontece durante a primeira menstruação, quando a moça fica em retiro em sua própria moradia, em silêncio, apenas ouvindo os ensinamentos da mãe e da avó sobre a vida adulta e sobre a tecelagem de algodão, atividade típica das mulheres.

    Após o período de recolhimento, a jovem iniciada prepara iguarias da culinária Ka’apor para todos da comunidade e tem seu cabelo cortado pelo pai. Quando o cabelo cresce novamente, está pronta para o casamento. Na festa do Cauim as moças se apresentam com indumentárias femininas e ficam sentadas sobre uma esteira de ramos de açaí.

    Casamento – A festa do Caium é uma ocasião onde também pode ser celebrado o matrimônio. A noiva é entregue pelo pai a seu companheiro e repousa seus seios nos joelhos do noivo, que a espera. Ele, por sua vez, coloca as mãos sobre a cabeça da noiva e após a cantoria, dançam e firmam seu compromisso.

    Povo Ka’apor – As aldeias Ka’apor estão localizadas na Terra Indígena do Alto Turiaçu, que fica ao norte do estado do Maranhão. Segundo informações do o Instituto Socioambiental (ISA), atualmente existem cerca de mil indígenas da etnia vivendo na TI.

    Essa comunidade mantém relações culturais e identitárias diretas com a floresta. É dela que retiram a matéria-prima para a confecção de objetos de uso cotidiano e de artesanato, principal fonte de renda para muitas famílias desta população. Também é na mata e na terra que buscam sua subsistência, por meio da caça, da extração florestal e da agricultura.

    Algumas aldeias Ka’apor desenvolveram uma forma de comunicação específica para não ouvintes. Trata-se de uma linguagem de sinais composta de gestos comuns, expressões faciais, mímica, articulação com o dedo indicador e com os lábios. O primeiro registro em imagem desta linguagem foi feito por Vladimir Kozák durante uma viagem feita entre 1958 e 1959.

    Desde o final dos anos de 1950 e início da década de 1960, período que marca o projeto de integração nacional e ocupação populacional da Amazônia, tendo como marco a construção da estrada Belém-Brasília, os índios Ka’apor sofrem com a violência. Desde então, os conflitos socioambientais, principalmente contra madeireiros, tornaram-se recorrentes.

    O último conflito foi registrado no mês de agosto, quando madeireiros invadiram a TI Alto Turiaçu para retirar madeira de forma ilegal, provocando o desmatamento em uma área extensa da reserva. Para conter o desflorestamento, os Ka’apor desenvolveram estratégias próprias de proteção de seu território contra a exploração madeireira ilegal. “O Museu Goeldi oferece dados de pesquisa que podem contribuir para criar políticas públicas e pra enfatizar novamente que o território Ka’apor precisa estar livre de invasões e que as autoridades competentes devem atuar”, diz Claudia López. Leia o Manifesto do Povo indígena Ka’apor da TI Alto Turiaçu e a Moção de Apoio ao Povo Ka’apor publicada por pesquisadores.

     

    Texto: Mayara Maciel