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    Pan-Amazônia, trilhas e decisões

    27/01/2016 - Por Ivânia Vieira


    As tentativas de desenvolver a Amazônia seguem caminhos aventureiros de muitas ordens. Um dos mais utilizados é o da imposição de um modelo pensado de fora para dentro, forçando a adoção de tecnologias estrangeiras. Ignorar as especificidades desse território é a marca das propostas seguidamente sugeridas e testadas sem cerimônia. Resultado: os fracassos são acumulados, e por eles os povos amazônicos pagam um alto preço.

    Saquear a região e investir na destruição das culturas tornaram-se verbos de uma moda de longa duração. Os fios de resistência à matriz desenvolvimentista estão espalhados e, por vezes, não se conhecem, um dos efeitos da longa duração da prática expropriadora. Nesse cenário perceber a performance da resistência exige se dispor ao exercício aprendido dentro de um determinado rigor na busca de conhecimentos, das ideias produzidas e em produção em torno da Amazônia. Sem ele fica difícil se situar e se colocar como parte do protagonismo que a região reclama.

    Nesses dias, numa primeira leitura de Pan-Amazônia: Visão Histórica, Perspectivas de Integração e Crescimento, publicação organizada pelos pesquisadores Osiris M. Araújo da Silva e Alfredo Kingo Oyama Homma, me vieram à mente as aulas de tantos mestres e mestras formados em diferentes áreas do conhecimento e com um dado em comum, retirar do ostracismo pensadores da Amazônia nela nascidos ou que fizeram morada nesse pedaço de Brasil e estimular aos mais jovens a escrita de novas narrativas amazônicas.

    A coletânea de 23 artigos de Pan-Amazônia, lançado em 2015, é um mosaico de ideias em debate e articuladas a outras numa perspectiva de reforçar as reflexões a respeito da nossa condição pan-amazônica e da qual pouco falamos e pensamos. Tomara chegue aos cursos universitários e seja esmiuçada, confrotada. O economista Osíris da Silva, nascido em Benjamin Constant, no Alto Solimões, escacaviou em terra farta, ouvindo e selecionando algumas posições a respeito da história e das perspectivas de integrar e assegurar crescimento nessa região. Ao lado de Alfredo Homma, pesquisador da Embrapa, filho de Parintins, no Baixo Amazonas, Osíris mergulhou em águas profundas até conseguir transformar o projeto em realidade. “Como gerar emprego e renda para 25 milhões de habitantes que vivem nesta região (parte brasileira)”, questiona o economista. O livro carrega propostas à reflexão sobre as transformações  processadas neste século, seus impactos e a definição de caminhos que podem ser percorridos pela Amazônia não mais como apêndice problemático ao Governo brasileiro.

    O postulado de Bertha Becker, a geógrafa que se ocupou da Amazônia por mais de três décadas é conteúdo de um dos capítulos do livro escrito pelos pesquisadores Ima Célia Guimarães Vieira, Roberto Araújo O. Santos Junior e Peter Mann de Toledo sob o título “Ciência e políticas públicas para o desenvolvimento da Amazônia: homenagem a Bertha K. Becker”. Nele estão questões centrais das discussões promovidas por Becker, falecida em 2013, e muito atuais: “assume-se que o desenvolvimento sustentável não se resume à harmonização da relação economia/ecologia nem a uma questão técnica. Representa mecanismo de regulação do uso territorial que, à semelhança, de outros, tenta ordenar a desordem global. E, como tal, é instrumento político”. Produzir para conservar, na visão da geógrafa, é a meta para o novo paradigma científico e tecnológico (...) e deve, nessa dimensão, priorizar a substituição de importações e a geração de inovações, não somente tecnológica, mas também os serviços ambientais e a cultura.

    É outro canteiro pronto para ser tocado e alimentar a urgência da circulação dos conhecimentos pan-amazônicos que estão sendo colocados à disposição numa perspectiva  participativa.

    Fonte: A Crítica Manaus