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    Castanheira - uma das espécies de árvores mais longevas da Amazônia

    Castanheira do Maranhão, do Pará, do Brasil ou da Amazônia? Todos querem ter para si esta exuberante árvore nativa do bioma amazônico, cujo fruto comestível é muito apreciado mundo afora, fazendo o deleite  de quem o saboreia. A planta tem ampla ocorrência na Pan-Amazônia, o que, segundo os etnobotânicos, pode indicar uma história de domesticação iniciada há milênios por paleoíndios. Já os ecólogos defendem a grande plasticidade de adaptação da espécie no ambiente amazônico, sobretudo nas clareiras naturais, propiciando sua ampla dispersão pela floresta.

     

    Agência Museu Goeldi – Especialistas estimam que exista no bioma amazônico 390 bilhões de árvores, agrupadas em cerca de 16 mil espécies arbóreas, e neste universo verde algumas se destacam como hiperdominantes. Esse é o caso da castanheira, uma árvore com um papel ecológico e socioeconômico relevante na história da Amazônia. A castanheira foi a responsável por manter a economia dos estados do Pará e Amazonas após o declínio do ciclo da borracha. É do extrativismo da castanha que, ainda hoje, milhares de coletores e coletoras sustentam suas famílias. E, entre as características que a tornam singular, está a longevidade - já foram identificados exemplares com mais de 800 anos – e grande produção de castanhas. A majestosa castanheira é a personagem da penúltima edição da série “As Anciãs do Museu Goeldi”.

    A castanheira (Bertholletia excelsa Bonpl.) é uma das árvores mais representativas da floresta amazônica. Originária das matas de terra firme, é a mais longeva (pode viver centenas de anos), a de maior crescimento em diâmetro do tronco (há registros de indivíduos com mais de 5 metros de diâmetro) e a segunda maior em altura (atinge 50-60 metros de comprimento), ficando atrás apenas dos angelins.

    A planta já atraiu a atenção de cientistas famosos como Jacques Huber (1867 – 1914), Adolpho Ducke (1876 – 1959) e Paulo Cavalcante (1922 - 2006), pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi. A castanheira é uma das espécies estudadas pelo engenheiro florestal Rafael P. Salomão, também pesquisador do Museu Goeldi e um especialista na árvore, que, entre outros aspectos, destaca a capacidade de crescimento rápido – taxas anuais de até 1,5 metro de altura e 3 centímetros de diâmetro já foram registradas em vários estudos.

    Essa espécie amazônica se adequa a climas diferenciados, resistindo a períodos de resfriamento, aquecimento, secagem e umedecimento. O cenário de aclimatação da castanheira para o futuro, a se manter a tendência de aquecimento global é positivo. Graças ao crescimento acelerado e à grande resistência, ela se torna ideal para a recuperação de áreas degradadas, como aquelas geradas pelas atividades de mineração.

    Clique aqui para acessar o vídeo sobre a castanheira.

    Debates - A discussão sobre a origem dos castanhais na Pan-Amazônia apresenta pelo menos dois pontos de vista, como esclarece Rafael P. Salomão. A ecologia explica a disseminação dos grandes castanhais por meio da dispersão de sementes por roedores e aves (sem a interferência humana), já pesquisas interdisciplinares arqueológicas e antropológicas defendem que o sucesso de sua distribuição no bioma amazônico foi feito por povos humanos pré-colombianos, que iniciaram um processo de domesticação da planta.

    Estudos arqueobotânicos estimam que a espécie é cultivada na Amazônia há mais de 11 mil anos por populações de paleoíndios. Após analisar a paisagem ao redor de sítios arqueológicos, como na Serra de Carajás (PA), por exemplo, especialistas apontam que as castanheiras se encontram agregadas porque os antigos habitantes a plantavam nas clareiras, garantindo o fruto para as gerações futuras.

    “Pelo viés da ecologia, entendemos que ela é uma espécie de pleno sol, então precisa de luminosidade para fazer fotossíntese e crescer até atingir o dossel da floresta. É uma árvore de grande porte que, quando morre e tomba, abre uma clareira muito grande. No chão ficam as os ouriços com as castanhas (amêndoas), que germinam e crescem com a entrada da luz, formando os castanhais de forma agregada”, explica Salomão.

    Apaixonado pela beleza e estratégias da majestosa árvore, cuja copa se destaca na paisagem, Rafael P. Salomão a aponta como a mais bela espécie da Amazônia: “quando caminho em uma floresta em que ocorre a castanheira e me deparo com um exemplar de 3, 4 ou até 5 metros de diâmetro, com um fuste reto, percebo que ela é a arvore por excelência da Amazônia”, explica o pesquisador. Acesse aqui o número temático do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi – Ciências Natural sobre a castanheira.

    A beleza e a majestade da castanheira também encantaram o botânico francês Aimé Jacques Alexandre Goujaud Bonpland, que descreveu a planta pela primeira vez em 1808, chamando-a de Bertholletia excelsa. Segundo o dicionário, excelso é alto, elevado, sublime, excelente, admirável e ilustre – termos que parecem se adequar como uma luva a nossa personagem.

    Socioeconomia da castanha – Com o final do ciclo da borracha na bacia amazônica, que abalou a economia da região, a venda de castanhas auxiliou a manutenção das exportações nos estados do Pará e Amazonas. O Pará liderava a extração das amêndoas em função do polígono dos castanhais, concentrado na região de Marabá, no Sudeste do estado. E o Brasil era o maior exportador da iguaria amazônica, que era apreciada na Europa desde o século XVII.

    Contudo, a política de incentivos fiscais do governo brasileiro na década de 1960 para a criação de pastagens destinadas à pecuária culminou com o desmatamento e destruição de boa parte do polígono das castanheiras. Apesar de muito resistente, a árvore não suporta o manejo por fogo em um período consecutivo de três anos, técnica empregada para abertura das pastagens. O polígono deu origem ao cemitério de castanheiras.

    Atualmente, o maior exportador de castanha amazônica é a Bolívia. No Brasil, o estado que mais produz o fruto hoje em dia é o Acre, porém, o estado do Amazonas lidera a implantação de castanhais plantados em sistemas de manejo.

    A economia da castanha também afeta diretamente a vida dos coletores (extrativistas), como explica Rafael Salomão. “Uma árvore que pode atingir 800 anos é capaz de sustentar muitas gerações de famílias de coletores , bem como  as comunidades que vivem desta atividade. É como se ela fosse uma caderneta de poupança por séculos, que pode passar de pai para filho: sem adubação, sem tratos culturais e, mesmo assim, todos os anos tem (a safra de amêndoas) num ano com safra forte e no subsequente uma mais fraca; perpetuando-se esse ciclo. A castanha tem um preço relativamente bom no mercado, por este motivo traz benefícios sociais também, pois trata-se de um produto florestal não madeireiro, ou seja, não se derruba a árvore para se ter o produto final (castanha) como quando se trata da produção de madeira serrada”, conta Rafael P. Salomão.

    Além de produzir sementes comestíveis, a planta fornece madeira de ótima qualidade também; plantios na Bolívia, por exemplo, são feitos neste sentido. No passado, as fibras de sua entrecasca já foram utilizadas na calefação de barcos.

    A dizimação de grandes populações de castanheiras na Amazônia, sobretudo a partir dos anos 1960, teve como uma das consequências a introdução da mesma nas listas de espécies ameaçadas de extição do Brasil e do Pará. Como medida protetiva, o corte e a exploração da castanheira em florestas primárias para a indústria madeireira foi proibida no Brasil, Bolívia e Peru.

    De quem é a castanha? – Um fator curioso sobre a castanheira é a origem do nome de seus frutos. Entre os indígenas do Pará, a amêndoa era conhecida como anhaúba, mas os europeus a chamavam por outro nome: castanha-do-maranhão. Com o passar do tempo, os colonizadores portugueses a denominaram “castanha-do-brasil”.

    O nome castanha-do-pará foi atribuído ao fruto quando o estado se tornou o maior exportador da iguaria. Atualmente a amêndoa é conhecida em todo mundo como “castanha-do-brasil”, designação dada pelo governo brasileiro na década de 1950. Contudo, outros países amazônicos produtores de castanha contestam a nomenclatura e sugerem o nome “castanha-da-amazônia”.

    Museu Goeldi Entre as décadas de 1960 e 1980, as castanheiras plantadas no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi tiveram acompanhamento de um grande especialista em frutos comestíveis da Amazônia, o botânico Paulo Cavalcante.

    No Parque, os exemplares dessa árvore recebem um cuidado especial da equipe técnica do Setor Flora, que periodicamente fazem o controle hídrico do solo para que as castanheiras continuem se desenvolvendo, e observam sua fenologia. Os frutos que caem no período de safra são aproveitados para a complementação alimentar dos animais do Parque, mas isso só ocorre quando a equipe de biólogos é mais rápida do que as cutias que percorrem livremente toda a área do Parque Zoobotânico, pois tratando-se de dispersores naturais da espécie  são especialistas em abrir os ouriços e acessar desta forma as castanhas; como são em grande número de sementes elas acabam enterrando-as em vários locais para depois buscarem o alimento quando este se torna escasso. Todavia, muitas sementes são esquecidas pelas cutias, permitindo desta forma, a dispersão natural da espécie na mata.

    As anciãs do Museu Goeldi - O projeto Viva Amazônia apresenta ao público informações sobre o bioma amazônico e os acervos do MPEG no formato de séries de reportagens multimídia.

    A proposta iniciou-se em 2015 com a apresentação do acervo vivo da instituição. Já foram lançadas as séries “Viva a Fauna Livre” e “Aves e Mamíferos”. O material seriado conjuga jornalismo, vídeos, ilustrações, design e interação com o público das mídias sociais. Clique aquiaqui para ter acesso às reportagens, vídeos, tutoriais e miniaturas das edições “Viva a Fauna Livre” e “Aves e Mamíferos”.

    O projeto Viva Amazônia é desenvolvido pela Escola da Biodiversidade Amazônica (Ebio), subprojeto do INCT/Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia, e pelo Laboratório de Comunicação Multimídia (LabCom) do Museu Goeldi.

    A série “As Anciãs do Museu Goeldi” conta com a parceria da Coordenação de Museologia do MPEG, através do projeto “A transformação da paisagem do Parque Zoobotânico durante os primeiros 50 anos de existência”, desenvolvido pela Dra. Lilian Flórez, e ainda com a colaboração do setor Flora do Parque Zoobotânico e das coordenações de Botânica e de Informação e Documentação – todos setores do Museu Goeldi.

    Em dezembro deste ano a última edição da série trará histórias sobre a coleção de palmeiras do Museu Goeldi. Acompanhe.

     

     

    Texto: Joice Santos, Rafael Salomão e Mayara Maciel