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    A anciã das anciãs

    O Museu Goeldi exibe um exemplar histórico de guajará, presente há mais de 150 anos nos terrenos do Parque Zoobotânico. Com muita saúde, o espécime do Goeldi floreia e dá lindos frutos

    Agência Museu Goeldi – A coleção patrimonial do Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) foi iniciada no ano de sua inauguração, em 1895, com o propósito de exibir a diversidade natural da Amazônia. Com tanto tempo de existência, seria possível imaginar qual o elemento mais antigo deste imenso jardim?

    Engana-se quem pensa que é um monumento histórico, ou até mesmo o Alcino, o jacaré-açu com mais 70 anos. O indivíduo mais longevo do Parque está vivo há mais de um século e meio. E apesar de ser um ancião, ainda tem muita saúde e rende bons frutos. Estamos falando do guajará (Chrysophyllum venezuelanense), a quarta espécie apresentada na série multimídia “As Anciãs do Museu Goeldi”.

    O exemplar da espécie presente no Museu Goeldi ultrapassa em idade o prédio mais antigo da instituição, que tem 137 anos. O pavilhão Domingo Soares Ferreira Penna, a Rocinha, é um casarão construído na segunda metade do século XIX que já foi espaço para laboratórios e coleções, e até mesmo moradia para pesquisadores, e atualmente continua em uso como espaço para diversas exposições científicas e artísticas.

    “Quando os terrenos da Rocinha foram adquiridos pelo Governo, em 1895, e disponibilizados para a adaptação do Museu, do zoológico e do horto botânico, já existiam algumas árvores e espécimes na área do antigo dono dos terrenos, o Coronel Bento José da Silva Santos”, disse a museóloga Lilian Flórez, bolsista do Museu Goeldi.

    Além das árvores plantadas, muitas espécies nativas faziam parte da paisagem dos terrenos que hoje conformam o Parque Zoobotânico do MPEG, entre elas o guajará, que tinha ampla ocorrência na região. Jacques Huber, o botânico que idealizou o Horto e o Herbário do Museu Goeldi, interessou-se pela planta, a primeira estudada pelo suíço após sua chegada à instituição em 1895.

    Ele foi um dos primeiros a caracterizar e identificar a espécie a partir do exemplar encontrado no Parque. Chrysophyllum excelsum Huber foi o nome atribuído pelo naturalista à espécie, porém, esta descrição foi contestada após constatação de um registro anterior na Venezuela. Sendo assim, o verdadeiro nome científico da espécie é Chrysophyllum venezuelanense (Pierre) T.D. Penn.

    No Museu Goeldi, a planta embeleza e dá sombra ao ambiente das onças pintadas e à lateral do pavilhão da Rocinha. Alta e majestosa, mantém muita vida em todos os seus estratos.

    Baixe para o seu celular e computador a aquarela do guajará feita por Livia Prestes. Basta clicar aqui e aqui. Assista a um vídeo com informações sobre o guajará clicando aqui.

    Cuidados Para atravessar o tempo e chegar a idade provecta de 150 anos vivo e saudável, o guajará mais antigo do Museu Goeldi exige cuidados especializados. O setor Flora do Zoobotânico realiza monitoramento constante da planta, atento a todos os aspectos que ela apresenta. Afinal, o Parque do Goeldi está em uma situação muito diferente daquela do século XIX. O que antes era uma área rural, cercada de mata nativa, hoje é uma pequena mancha verde – a área total do Parque do Goeldi tem 5,4 hectares -que resiste no centro da metrópole, rodeada de prédios altos e vias com tráfego intenso.

    Em 2012, após uma forte chuva com ventania, um dos galhos do guajará despencou no solo do Parque Zoobotânico, sem atingir estruturas ou pessoas. A queda do galho poderia comprometer seu equilíbrio e o Museu Goeldi não estava disposto a perder um exemplar histórico tão significativo. O acompanhamento da árvore foi intensificado e ganhou um reforço extra. O MPEG em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) produziu um diagnóstico mais completo da planta - periodicamente a coleção de grandes árvores da instituição passam por exames.

    Entre os cuidados adotados para recuperar o guajará, houve a retirada de galhos para reduzir o peso da copa, a remoção da vegetação em excesso no tronco e o reforço da adubação orgânica em volta da árvore.

    Situado em um local de intensa visitação, o guajará precisava de proteção para suas raízes. Para evitar o pisoteamento do solo - o que afeta a nutrição da planta - e diminuir a compactação o solo, provocada ao longo do tempo pela movimentação de visitantes no entorno da árvore, a área onde está exposta a raiz do guajará foi isolada. Protegida com a ampliação do guarda-corpo que cerca o recinto das onças, o Guajará recuperou a sua saúde.

    Os fãs das onças não aceitaram de bom grado a medida, mas os seres viventes que usufruem do Guajará – onças, insetos, aves, outras plantas e amantes da botânica – com certeza agradecem o cuidado.

    Descrição – A planta é tão grandiosa quanto a baía que margeia a cidade de Belém do Pará e leva o mesmo nome. Ela pode atingir até 40 metros de altura, mas sua delicada flor não mede mais do que 5 milímetros. O fruto, também pequeno, é arredondado, mede de 6 a 8 centímetros e as sementes 2,5 centímetros. “Os frutos têm sabor aproximado ao da sapotilha e do abiu, só que não são tão gostosos quanto o abiu ou a sapotilha”, conta Ricardo Secco, professor dos Programas de Pós-Graduação em Botânica Tropical, Bionorte e Biodiversidade e Evolução, além de ex-curador do Herbário do Museu Goeldi.

    Ricardo também aponta os locais de ocorrência da árvore. “O guajará tem uma distribuição muito ampla que vem desde a América Central, alcança a Colômbia, o Peru e adentra na Amazônia brasileira especialmente no Pará, no Amazonas e no Acre, além do Mato Grosso”, explica.

    Viva Amazônia – O projeto Viva Amazônia apresenta ao público informações sobre o bioma amazônico e os acervos do MPEG no formato de séries de reportagens multimídia.

    A proposta iniciou-se em 2015 com a apresentação do acervo vivo da instituição. Já foram lançadas as séries “Viva a Fauna Livre” e “Aves e Mamíferos”. O material seriado conjuga jornalismo, vídeos, design e interação com o público das mídias sociais. Clique aquiaqui para ter acesso às reportagens, vídeos, tutoriais e miniaturas das edições “Viva a Fauna Livre” e “Aves e Mamíferos”.

    O projeto Viva Amazônia é desenvolvido pela Escola da Biodiversidade Amazônica (Ebio), subprojeto do INCT/Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia, e pelo Laboratório de Comunicação Multimídia (LabCom) do Museu Goeldi.

    A série “As Anciãs do Museu Goeldi” conta com a parceria da Coordenação de Museologia do MPEG, através do projeto “A transformação da paisagem do Parque Zoobotânico durante os primeiros 50 anos de existência”, desenvolvido pela Dra. Lilian Flórez, e ainda com a colaboração do setor Flora do Parque Zoobotânico e das coordenações de Botânica e de Informação e Documentação – todos setores do Museu Goeldi.

    Venha ao Museu Goeldi e conheça a árvore testemunha da história da instituição. No próximo mês, conheça a castanheira, a árvore ameaçada mais importante do Museu Goeldi.

     

     

    Texto: Mayara Maciel