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    Laboratório de Práticas Sustentáveis em Terras Indígenas

    Coordenação e Equipe |  Publicações

     

    APRESENTAÇÃO

    O relatório apresenta as pesquisas e atividades realizadas no âmbito do subprojeto “Laboratório de práticas sustentáveis em Terras Indígenas próximas ao Arco de Desmatamento”, no período compreendido entre abril de 2010 e agosto de 2011 em diferentes Terras Indígenas – Las Casas (PA), aldeia Las Casas; Kayapó (PA), aldeia Moikarakô; e Alto Turiaçu (MA), aldeias Xiepihu-rena e Paracui-rena.

    INTRODUÇÃO

    O subprojeto 8 realizou pesquisas com os povos das Terras Indígenas Kayapó (TIK), Las Casas (localizadas ao Sul do Pará) e Alto Turiaçu (Localizada na fronteira entre Pará e Maranhão). Os indígenas da TI Kayapó e Las casas são da etnia Kayapó, falantes da língua Jê, já os habitantes da TI Alto Turiaçu são da etnia Ka’apor e falantes da língua Tupi. As TIs estão localizadas, respectivamente, nas regiões nos Centros de Endemismo Xingu e Belém, áreas que constituem reservas de floresta amazônica e cerrado.

    Esses povos indígenas contribuem, por meio do conhecimento tradicional sobre o manejo da terra e da floresta, para a conservação da biodiversidade de animais e dos demais recursos naturais, constantemente ameaçados pelas práticas ação da pecuária e do desmatamento ilegal para cultivo da soja, entre outros. As Terras Indígenas são marcadas por diversos conflitos etnoambientais, envolvendo diversos povos indígenas e a sociedade regional.

    Nesse contexto, basicamente foram realizadas pesquisas sobre a relação dos povos indígenas das aldeias Moikarakô (TIK), Las casas (TI Las Casas), Xiepihu-rena (TI Alto Turiaçú) com o meio ambiente, utilizando metodologias com a finalidade de registrar os conhecimentos tradicionais sobre os recursos naturais, os conflitos socioambientais, com a finalidade de perceber de que forma as diferentes formas de apropriação dos recursos naturais, por parte dos diversos atores em conflito, contribuem de forma positiva ou negativa para a conservação da biodiversidade da região.

    A partir disto, a pesquisa pretende incentivar práticas sustentáveis nas esferas cultural e ambiental, tendo como norte o diálogo entre o saber científico e o tradicional, visando a recuperação de áreas degradadas e a geração de renda baseada em formas alternativas de aproveitamento de recursos florestais não madeireiros.

    METODOLOGIA

    O fato de a pesquisa em questão ser interdisciplinar permite diversificados métodos de pesquisa, todos buscando o conhecimento sobre as relações mantidas entre os povos indígenas e o meio ambiente em que constroem, de forma sustentável, sua cultura, economia etc.

    Na linha da "ecologia histórica aplicada" (Balée 2005), trabalhou-se a gestão participativa e a valorização dos conhecimentos tradicionais como estratégia de proteção desses saberes e de alcance do desenvolvimento participativo, visando a sustentabilidade por meio do manejo adequado dos recursos naturais.

    Para isso foram realizadas pesquisas participativas, privilegiando a “observação participante”. A pesquisa-ação (Fals Borda e Brandão 1987; Thiollent 2009) foi utilizada como estratégia para facilitar participação e a interação com os povos indígenas na execução das diversas etapas do projeto.

    Durante os trabalhos de campo nas aldeias, outra técnica de pesquisa empregada foi a observação participante, complementada por entrevistas semiestruturadas sobre assuntos específicos, além de gravações, anotações, pesquisas bibliográficas e em fontes primárias como arquivos e jornais.

    A cartografia participativa foi utilizada com os indígenas da etnia Kayapó, mas não foi bem acolhida pelos Ka´apor, que preferem métodos mais convencionais e sem intervenção de aparatos tecnológicos. Este método pretende valorizar o conhecimento indígena sobre seu território e seus recursos.

     

    RESULTADOS DE PESQUISA

    TERRA INDÍGENA LAS CASAS –PA

    Localizada ao sudeste do Pará, a Terra Indígena Las Casas é ocupada por 350 habitantes e é formada por três aldeias pertencentes à etnia Mebêngôkre-Kayapó, a maior delas, Las Casas (ou Tekrejarôti-re) possui 189 indígenas. As demais aldeias, Kraprãm Krere e Rõne Kore complementam a população da TI localizada entre os municípios de Pau D’ Arco, Redenção e Floresta do Araguai. A maior parte dessa TI está situada no bioma Cerrado e se caracteriza pelo pouco acesso aos recursos naturais, pela acidez do solo e pela degradação causada pela pecuária. Desta forma, a agricultura familiar indígena não garante produção e é necessário recorrer a formas alternativas de geração de renda, como o artesanato sustentável, cuja potencialização da atividade foi discutida com a comunidade indígena durante a realização da pesquisa.

    Foram realizadas duas oficinas de transmissão de saberes tradicionais sobre os aspectos mais importantes da cultura material (trabalhos em miçangas, enfeites de crianças, trabalho em linha de algodão, trançados em fibras e confecção de máscaras) dos Mebêngôkre-Kayapó da aldeia Las Casas e também sobre aspectos da cultura imaterial como os choros femininos, a pintura corporal e as danças.

    Os resultados parciais apresentados são produtos de nove temporadas de trabalho de campo efetuadas em agosto e novembro de 2010, maio e novembro de 2011 e março de 2012, março e novembro de 2013, e maio e novembro de 2014.

    Um dos resultados concretos desta expedição foi o início do levantamento de recursos florestais não madeireiros com potencialidade comercial, objetivo principal da dissertação intitulada “Produtos Florestais Não Madeireiros em Terras Indígenas Kayapó no Estado Pará: Diversidade e Uso”. Os dados foram levantados junto à comunidade e foram efetuadas coletas botânicas para identificar as espécies usadas e conhecidas pelos moradores da aldeia. As amostras identificadas estão depositadas no Herbário do Museu Paraense Emilio Goeldi. Este levantamento foi complementado por uma tese que analisa os processos práticas de coleta de produtos florestais não madeireiros para confecção de objetos com fins comerciais.

    Foi levantado que os recursos vegetais de maior importância paraos Kayapó são o pequi (Caryocar brasiliense A. St. - Hil.), buriti (Mauritia flexuosa L. f.) e babaçu (Attalea speciosa Mart.). Essas espécies geralmente são utilizadas na confecção de artesanato, óleos de uso cosmético, alimentação e na cobertura das casas. Outras plantas de 69 espécies de 32 famílias foram levantadas e seus usos são feitos principalmente para fins de medicina, pintura corporal, alimentação e artesanato.

    Em uma pesquisa de campo realizado em novembro de 2010 foi feito um levantamento sobre as espécies vegetais fornecedoras de sementes para a confecção de artesanato, locais de ocorrência dessas espécies e qual o tipo de artesanato feito com cada uma das espécies levantadas.

    Inventariou-se 26 plantas distribuídas em 8 famílias botânicas, cujas sementes são utilizadas na composição de colares, brincos, pulseiras, tornozeleiras, cintos etc.

    Um inventário sobre a ocorrência do babaçu (A. speciosa) também foi realizado com a proposta de analisar a viabilidade deste recurso para potencializar a melhorias nas condições de vida das mulheres da aldeia Las Casas, visto a necessidade de geração de renda por pare das mulheres da aldeia. Este primeiro inventário de A. speciosa apontou uma densidade de 160 indivíduos\ha, densidade semelhante ao reportado na literatura para a espécie, usando a metodologia de transectos contínuos de 50m de comprimento x 20 m de largura, somando uma área total de um hectare.  A avaliação das formas de benefício do babaçu só poderá ser realizada após o resultado da análise de outras áreas de ocorrência da espécie, inventariadas em maio de 2014.

    Outros resultados das pesquisas realizadas na Aldeia Las Casas sobre plantas medicinais, perfil econômico e oportunidades de renda, oficinas de artesanato, cultura imaterial, transmissão de saberes femininos entre outros aspectos, podem ser verificados no Relatório Final do INCT/ Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia.

    TERRA INDÍGENA KAYAPÓ- PA: ALDEIA MOIKARAK

    Durante a viagem de pesquisa foram realizados levantamentos etnobotânicos dos recursos naturais explorados pela comunidade indígena para subsistência e artesanato. No levantamento constou, entre outros, produtos como fibras de palmeiras como o tucumã (Astrocaryum aculeatumG. Mey) cipós e sementes (32 spp. em total) entre as quais estão Ormosia flava (Ducke) Rudd e Ormosia excelsaBenth, utilizadas principalmente no artesanato. Outras espécies usadas na confecção de artesanato são mencionadas também na alimentação a exemplo prinkakti (Caryocar villosum (Aubl.)Pers.), e algumas palmeiras entre as que se destacam kamerikàk (Euterpe precatoria Mart.) e roi ti (A. aculeatum).

    Além dessas, foram levantadas outras espécies utilizadas na medicina tradicional Kayapó, na construção de casas e na pintura corporal.

    Também foi objetivo realizar o estudo etnohistórico da cultura material Mebêngôkre, que englobasse elementos da história oral e que mostrasse a história do contato de grupos Kayapó como os Iran Amiraire.

    O trabalho de campo está associado a uma pesquisa arquivística sobre as primeiras décadas do século XIX, com a formação das cidades no entorno das aldeias Kayapó e da intensificação do contato entre brancos e índios. Pretendeu-se complementar e questionar as fontes históricas escritas na época sobre os Irã Amrãnh, tendo como base a etnografia realizada na aldeia, buscando, através de uma perspectiva de pesquisa histórica oral, evidenciar as relações  interétnicas entre índios e brancos.

    Entre os resultados alcançados percebeu-se que a importância de um estudo sobre identidade. Veja demais resultados das pesquisa realizadas na aldeia Moikarak acessando o Relatório Final INCT/ Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia.

    TERRA INDÍGENA ALTO TURIAÇÚ-MA: ALDEIAS XIEPIHU-RENA E PARACUI-RENA

    A TI Alto Turiaçu, localizada na divisa entre Pará e Maranhão, é povoada por 16 aldeias formadas por aproximadamente 1.500 indígenas Ka’apor, falantes de uma língua da família Tupi-guarani.

    As aldeias Xiepihu-rena e Paracui-rena concordaram com a realização da pesquisa, que deveria apoiar inicialmente a produção de artesanato como alternativa de geração de renda. Notou-se a necessidade de plantar curauá (Ananas comosus var. erectifolius), uma fibra para a elaboração da cultura material Ka’apor, além de incentivar, principalmente as iniciativas de venda de artesanato já em andamento nas aldeias desde 2009. Nesta linha, levantamentos etnográficos e etnobotânicos sobre a cultura material dos Ka’apor foram realizados.

    Sobre a produção de objetos indígenas com fins comerciais, notou-se que entre os Ka’apor, a produção de objetos de cultura material é uma atividade ligada à condição de gênero. As mulheres confeccionam a cultura material relacionada ao algodão como matéria-prima, mas também utilizam fio industrializado na confecção de redes, saias, tipoias etc. Além do trabalho com o algodão, as mulheres confeccionam bijuterias a partir do uso de matérias-primas como fibras, madeira, sementes de tucumã, inajá etc.

    Os homens Ka’apor se destacam na confecção da arte plumária, sendo treinados desde a infância nas técnicas adequadas de caça de aproximadamente 30 espécies diferenciadas de aves, com cujas penas elaboram artefatos. A arte plumária, até pouco tempo, era o principal modo de articulação monetária dos Ka’apor.

    Outra pesquisa buscou identificar os principais elementos iconográficos presentes nos objetos da cultura material Ka´apor a fim de subsidiar o desenvolvimento, em conjunto com a comunidade, de uma identidade visual (logotipo) para os produtos artesanais destinados ao comercio.

    A partir observação e análise de desenhos Ka´apor, propostas de logotipo e suas aplicações foram criadas seguindo conceitos que evidenciem o grafismo Ka´apor e aliem a comunidade ao artesanato feito pelo grupo de mulheres artesãs.

    Agricultura  Ka’apor: práticas e representações, práticas alimentares, registros fotográficos e demais aspectos desta pesquisa sobre o povo Ka’apor podem ser vistos no Relatório Final INCT/ Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia.

    FORMAÇÃO DE RECURSOS HUMANOS

    O projeto também objetiva a formação de recursos humanos para atuação em pesquisas na Amazônia, que é feita por meio da participação de quatro alunos de graduação, que são bolsistas de iniciação científica e desenvolvem projetos que tem a ver com o uso dos recursos naturais para a elaboração da cultura material indígena.

    Além dos alunos de graduação, o projeto também colaborou na formação de dois mestres, outros bolsistas de Desenvolvimento Tecnológico e Industrial e do Programa de Capacitação Institucional. Também formou jovens indígenas como promotores culturais e ambientais pro meio de cursos e oficinas.

    IMPLANTAÇÃO DE PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS

    O projeto também discutiu em todas as aldeias pesquisadas a implantação de práticas sustentáveis.

    Na TI Las Casas, um projeto para a construção de um “Museu Kayapó” foi submetido no edital da UNESCO: “International Fund for Cultural Diversity”, mas infelizmente não foi aprovado. Outra iniciativa de prática sustentável foi através do edital do MUSEU DO ÍNDIO/FUNAI: Ação de Promoção do Patrimônio Cultural dos Povos Indígenas, que destinou recursos para a compra de matérias primas e ferramentas para a produção de artesanato para a comercialização dos produtos obtidos a partir das oficinas realizada.

    Na TI Kayapó (aldeia Moikarakô) discutiu-se a elaboração do projeto “Pyxanh-y tykre Ketenhõrax”, para incentivar a produção e venda do artesanato local. Em um futuro próximo, o projeto deverá ser submetido para tentar obter recursos do Fundo Kayapó, especialidade do Fundo Amazônia.

    Já nas Aldeias Xiepihu-rena e Paracui-rena, da TI Alto Turiaçu, a venda de artesanato foi realizada em 2011 nas feiras da cidade de Paragominas (PA) e na Livraria do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém.

    EXPOSIÇÕES

    O projeto também foi responsável pela organização de duas exposições que têm o objetivo de divulgar os conhecimentos produzidos no projeto sobre as comunidades indígenas.

    A Exposição fotográfica “Os Mebêngokrê- Kayapó da aldeia Las Casas” teve a abertura em abril de 2014 e esteve instalada no pavilhão de exposições Domingo Soares Ferreira Penna, no Museu Paraense Emílio Goeldi. A exposição foi aberta paralelamente ao lançamento do livro-catálogo Me à yry Tekrejarôtire.

    A exposição “A Festa do Cauim. Ka’apor akaju ta’yn muherha” foi resultado do projeto Conservando coleções e conectando histórias”, em colaboração com o Museu Etnológico Nacional da Holanda, a Universidade de Leiden o Museu Goeldi e o povo Ka’apor. Aberta em 2014, a exposição tem o objetivo de mostrar o principal ciclo cerimonial do povo Ka’apor que acontece durante a festa do Cauim.

     








    e a exposição “A Festa do Cauim. Ka’apor akaju ta’yn muherha” foram instaladas no pavilhão de exposições Domingo Soares Ferreira Penna, no Museu Paraense Emílio Goeldi.